Domingo, 31 de Janeiro de 2010

Estória de um perfume

 

Rosa tinha um fascínio por perfumes, desde sempre. Achava-os belos, bons, capazes de a transportar para um qualquer lugar existente para poucos ou mesmo, como por vezes acontecia, apenas seus.
Apreciava conhecer novos aromas, senti-los na pele, amá-los…. Ou odiá-los. Conforme. Se bem que, na verdade, nutria pela maioria uma relação de desapego. Poucos espécimes, mas em frascos de todos os tipos, foram dignos do seu afecto incondicional.
Um dia, porém, convenceu-se que encontrara o tal: a sua signature fragrance. Aquele perfume que te identifica, aquele com o qual te identificas. Aquele que as pessoas sentem e pensam “hmm, é o aroma dela”, aquele que descansa na pele como se tivesse sido criado em exclusivo, uma reacção química perfeita: sem desperdício de energia, umas trocas à medida.
Olhou certa vez para o belo vidro e achou a cor perfeita, a luz reflectia-se como uma suave melodia, o laço que o decorava era adorável... Mas a primeira impressão fora má: ao acariciar a pele com um fino véu de fragrância essa parecera-lhe hostil. Foi apenas num segundo reencontro que descobrira que, afinal, aquele chypre de forte personalidade, a encantava; como se tivesse saído de uma história de vestidos de seda, bailes até à meia-noite e rosas brancas.
Contudo, muito tempo depois, Rosa acordou para um dia diferente. Aquele aroma, outrora inebriante, modificara-se: os vestidos não eram de seda, deram lugar a umas gangas; os bailes arranjados por fadas madrinhas eram como raves; e as rosas brancas quedavam-se amarelecidas, numa mistura banal de um vaso numa florista. Já nada do prometido lhe pertencia.
Fugiram-lhe as promessas, e o novo destino parecia-lhe um grande e inconcebível guião, resultante de alguma greve em Hollywood. Após alguns momentos para aceitar a realidade, colocou, aborrecida, o aroma antiquado no cimo de um armário e partiu à descoberta de um substituto prometedor.
Entrou e saiu muitas vezes, de muitas lojas. Ia às perfumarias tradicionais e às mais modernas. Folheava revistas e websites do assunto. Tentava compreender as pirâmides olfactorias, as diferentes famílias, as concentrações. EDT, EDP, notas de cabeça, notas de coração, notas de base. Talvez se olhasse para o lado químico conseguisse entender o psíquico. Porque não o consigo encontrar? Pensava e repensava. Buscava e rebuscava.
Tentou muitos: pelo nome, pelo frasco ou embalagem, pela cor, pela composição… e o “tal” nunca aparecia. Cada nova esperança… acabava por desvanecer-se ao primeiro “psschhiit”:
Hmmm, muito fresco… muito doce… muito forte… muito fraco… de pouca duração… com cheiro a madeira… com cheiro a selva… com cheiro a comida… enjoativo… banal… sufocante… antigo… infantil… freak.
Às vezes pensava desistir e repetia que se ia conformar com o próximo. Na próxima visita à “Sephora” decidir-se-ia. Mas a verdade é que o seu coração implorava pela fragrância perfeita. E continuou a sua busca. Meses, meses, e meses.
Um novo dia, deparou-se, quase sem esperar, com um aroma… conveniente. Não era o “tal” mas achou que combinava bem com a sua pele e recebeu inclusive elogios. Sim, sabia que uma fragrância é demasiado pessoal, tem de ser escolhida por quem lhe dará uso… mas ela sentia-se bem com ela. “Vou dar-lhe uma oportunidade”.
Era um perfume fresco e adocicado ao princípio. Tinha uma duração média. Por isso, pensou brevemente e, num impulso, resolveu levá-lo consigo. Aproveitou um momento de descanso para abrir pela primeira vez aquele frasquinho, com forma de fruto do amor, e usou de imediato.
Só depois, mais tarde, reparou que talvez se equivocara… Com a pressa, e aquele acto impulsivo comprara uma Eau de toilette! E agora? Depois de tanta busca nem sequer trouxe um verdadeiro perfume?
Deixou por momentos a decepção assentar e concentrou-se em aproveitar ao máximo a nova aquisição.
Queria mudar o que fora até ali a sua história aromática, cheia de frascos semi-cheios (nunca semi-vazios) na estante do quarto, e acabar o novo. “Sim, começar uma coisa e levá-la até ao fim”, a mãe repetia-lhe desde muito cedo essa ideia.
Por isso, começou motivada os dias seguintes: Tentava todas as manhãs umas pulverizações e aqueles acordes frutados tornaram-se suas fiéis companheiras. Queria habituar-se ao aroma e talvez até, com o tempo, passasse a ser a sua marca. Quem sabe?
Inicialmente gostou, estava satisfeita e sorridente. Perguntavam-lhe pelo aroma doce e ela respondia com um sorriso nos lábios. As pessoas gostavam, algumas. E Rosa continuou a apreciar o pequeno frasco encarnado, mas, uma vez mais as promessas ficaram esquecidas, e o aroma não é dela. Aquela nova Eau de toilette não grita “estou aqui, sou eu” aos quatro ventos.
Começou então a analisá-lo friamente e concluiu que era demasiado doce para ela. Por isso, abstinha-se uns dias de o usar. Ia dar-lhe um descanso, pode ser que sozinha, no frasco amadureça um pouco. Pode ser que se altere se ficar ali na cómoda uns dias, descansado.
E quando o vai buscar, de novo, custa já usá-lo. Mas fez um acordo consigo mesma. Para já, não há mais compras.
Um dia, porém, pode ser que surja o seu distintivo.
Afinal, a esperança morreu de velhice.

 

                                                              

 

 

redigido por cricri às 22:33
link do post | Comentar | Ler comentário (4) | favorito
Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

E às vezes...

Porque choras, Madalena?

 

 

 

redigido por cricri às 21:11
link do post | Comentar | Ler comentário (2) | favorito
Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

2010

 

Apesar de já estarmos no 4º dia do ano não consigo deixar de pensar em 2010 como uma daquelas datas que achava próprias, e única, de filmes de ficção científica. 
Sim, quando era mais nova associava 2010 a um programa da então "RTP 2", a naves espaciais e filmes do género Armageddon. Com muitas explosões e efeitos especiais.
A verdade é que pensava que alguma coisa mudaria em grande e as notícias principais à hora de almoço não seriam sobre os escândalos da política, o mundial de futebol o caso Maddie, entre outros. Ainda me sinto muito anos 90...!
Bem, impressões ao lado, o certo é que o ano chegou… E muito mais chegarão, não acreditando no filme do Roland Emmerich (que nem cheguei a ver), ou lendas Aztecas.
Esta passagem de ano soube alguns momentos a pouco, outros a muito, e outros ainda foram indefinidos pelas circunstâncias... O certo é que até correu bem!
Quanto às tradições não estive em cima de nenhuma cadeira com notas na mão, como aliás nunca tive o hábito, nem fui a tempo de comer as 12 passas (é impressão minha ou os segundos ficam mais rápidos de ano para ano?), limitanto-me a… degustar lentamente 12 uvas nos primeiros minutos de 2010 enquanto me esforçava por pedir desejos adequados à ocasião..!
Mas hoje é já dia de volta ao trabalho... a mim cabe-me estudar e dizer "Bem vinda pré-época-de-exames-que-para-mim-já-considero-oficial."
 
Um óptimo 2010, melhor que 2009, ainda que este tenha sido esplêndido, e um regresso à vida "normal", sem o brilho das festas, em grande, e em força!
ânimo:
melodia: El dulce de leche - Tryo
redigido por cricri às 10:57
link do post | Comentar | Ler comentário (1) | favorito

»Cricri

»Remexer no boudoir

 

»Setembro 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


»últimos posts

» Movimento Pró-Google Tran...

» Vuvuférias

» Erasmus 2010-2011

» O Passeio

» Sinto-me no Nevada

» Especialidades? Estão no ...

» Aula de farmacologia

» Back to step

» Fim de exames

» Estória de um perfume

»baú de posts

» Setembro 2011

» Junho 2010

» Março 2010

» Fevereiro 2010

» Janeiro 2010

» Dezembro 2009

» Novembro 2009

» Outubro 2009

» Setembro 2009

» Julho 2009

» Junho 2009

» Maio 2009

» Abril 2009

» Março 2009

»tags

» todas as tags

»predilectos

» 10 coisas para animar

» 15 coisas para fazer no s...

» Estúpidos hábitos

» A estreia do Padre novato...

» Só lê quem quer!

» Para todos os gostos!

»Visitas

blogs SAPO

»subscrever feeds